26 de junho de 2007
escritura
A lembrança daquela tristeza vem, e com ela, outra, que me toma, lembranças quase nem são ou se sabem isoladas, vêm pegadas, colar de contas sobrepostas, muitas voltas… Agora mesmo, nem sei por que, lembrou-me um colar, visto que me lembra cisão, separação e estilhaço de, número algum lhe dará conta, um ou milhões soarão gastos, moeda-pouca-sem-valor-de-mão-em- mão, vulgares de tão gastos. Lembro de um número de anos, eternidade a estancar em dado instante, sempre em meio a outro, tão maior vá lá: 1971, sábado, inverno ao cair da tarde. E só — o tempo não pede mais, os homens querem, a história crava os dias com feitos que não são seus. Julho talvez, aquele instante, se universo o tinha, e a inclinação do sol se queria… arte? Não se queria um rente esturricar na face ou sobre o terreiro em tanta ordem, e era sábado pois tudo a ser feito havia sido, nem por isso havia tédio, aquele, instante raro de tudo feito a não esperar por nada, e só deixar que o tempo viesse tragá-lo inteiro… em uma de suas goelas, e nem esperava nada? E do nada se fez também aquela hora: artifício de contas, não mais que um ponteiro cruzar, fazer que anda, esconder-se atrás de outro. Mesmo assim, sem obstâncias ela veio, com o sol da tarde se quebrou, terreiro, canteiros ordenados, pé de camélia bem podado feito lança gorda, roseiras e cravinas, mil pedaços a tristeza, apartar-se, como algo no mundo, acolhido em vão, no tempo, o nunca-mais-nada e uma dor que nem ao menos tinha nome’ou se sabia dor.
É preciso pouco — muito pouco. Tudo é tanto e muito pouco, e muito pouco basta para a tudo desintegrar feito lembrança que se confundiu com a de outro dia, o dia mais o outro, quase igual, de outro instante, ou se perderia se com ela não houvesse, junta, sensação a vigorá-la: quase-perda: destacar-se e dizer: sou eu — outra. Éramos dois, eu e minha irmã em tarde de sábado, em que tudo estava feito. Lembro do sol em brandura, esturrica-se no passante, na soleira, no posto de gasolina, se eu olhasse para lá ou para a rua ao longe, tudo. E no amplo quarto de provas e costura, ele dava para o alpendre, a escada me arrebentaria a boca e o terreiro ali além, as roseiras, morangais, um pobre cão eternamente preso — liberto, só, num momento de quase-morte — ante miscelânea floral que vicejava ao pé das laranjeiras, e lá dentro-quase-fora um imenso televisor ligado, branco e preto, futebol interrompido — e eu nem bola para ele —, um reclame de Coca-ou-Pepsi-Cola, referência, já outra lembrança, a um campo mexicano, ainda, e a mulher com arranjo na cabeça esfuziava: ah: finalmente um cacho: bananas. E é tudo o que ficou: arquibancos semivazios, alguém ao léu ou de pouco interesse, e a mulher de bananas na cabeça. Minha irmã, sempre mais ligada a algo que não fosse o sol da tarde, às ondas lá de longe, engolidas pela antena em grotão oculto pela terra. E disse: “o Pelé vai embora. Ele não vai mais jogar aqui entre nós, com a gente. Nunca mais. Ele vai embora”. Revelou. Partida.
Não sei se foi preciso, se era tanto, se foi preciso mais. O meu peito era pequeno e bem menino, e rasgou-se em dois ou três — Mil, dos gols que se contam? Que importa? Sem eu saber, dizia-se dele que era o rei. Não é preciso reis, inda que lendas se façam necessárias — para o tempo as engolir. Eu nem acompanhava Pelé, o Cosmos, os campos daqui ou de méxicos rememorados, nem sabia de qualquer lugar que fosse, nem lhe atentava a vida, o seu esporte e feitos cobertos já de mito e tantas glórias. Eu não eu nunca ouvira o sonoro nome “Jalisco”, eu nunca tinha ouvido isso, e de não saber-se tanto eu era trave em negações a se dizerem “não” até não se lembrar nem existir, se um pouco regressasse, e no entanto eu me dilacerei ante a nova: “Ele vai embora; não vai mais jogar aqui entre a gente”. "Por quê?" Ficou tão pouco dele, dessa lembrança, que é outra, do ser tão provisório e da tarde feito bola que se perde: a que sai linha afora e já não tem valor algum. Fez-se e refez novo sábado, este que em que estamos ou o que virá, e se não for, e foram-se tantos hojes. Eu nem sei se sou aquele mesmo, se veio outro se apossar do homem de mim, do que me lembro, a lembrar algo que a ninguém lembra, nem eu, a fazer eterno em um lugar-instante ínfimo, em sobrevivo, à força da fraqueza de uma lembrança de nome "qualquer", mas cada qual dizendo à outra “existiu, diga à outra que virá, que ele houve, aquele instante, diga à próxima, sim, eu já me vou, ele é o engano colado n’alguém que já se foi, diga à ela, a próxima, que houve aquele instante que por mim, em ti, por ela, graças à outra que virá, quer, por tudo, pelas forças, pelo Cosmos, qual Cosmos?, qualquer um, repetir sempre outro e fingir-se eterno — fingir que foge para o cosmo e dizer que vai pra lá. Diga à tua vizinha, lembrança desnascida, que o estilhaço, mil tristezas em pedras de terreiro, um dia houve, amarre-o nas redes de tua trave, indo, para onde, ah, o Cosmos, um tal Pelé, certo ao dizer-se ele, eus — que nada — que houve e se fez, mulher em tela, à tarde, bananas firmes e seguras em um cacho, equilibrado a tentar em desespero não sumir, não fugir, não partir, para onde?, em sua cabeça” a inscrever o partir aquela tarde 1 9 7 1, 1 9 7 1
criado por refain
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