27 de agosto de 2007
recomposição
Estou procurando, estou procurando. estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não saber como viver, vivi um outro? A isso quereria chamar de desorganização, e teria a segurança de me aventurar porque saberia depois para onde voltar:
para a organização anterior. A isso prefiro desorganização, pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.
Se eu me confirmar e me considerar verdadeiro, estarei perdido, porque não saberei onde engatar meu novo modo de ser - Se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele.
Perdi alguma coisa que me era essêncial, e que já não me é mais necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar, mas que fazia de mim, um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesmo, e sem querer precisar me preocupar.
Estou desorganizado porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la - na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplismente ir. è didícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira que vivo. Até agora achar-me era já ter uma ideia de pessoa e nela me engatar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre? Não.
sei que não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por objetivo achar - e que por segurança chamarei de achar o momento em que encontrar um meio de saida.
Porque não tenho coragem de apenas encontrar um meio de entrada?
Sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa estrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que eu soubesse pra onde e para o que.
Ontem, no entanto perdi horas durante minha montagem humana.
Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdido. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar a desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja em relação: a ser? E no entanto não há outro caminho. Como é que se explica que o meu maior medo seja o de ir vivendo o que for sendo? Como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outro - como se antes eu tivesse sabido o que era! Porque é que ver é uma tal desorganização?
è uma desilusão. Mas desilusão de que? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas constituida?
Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria diser assim: ele está muito feliz poque foi finalmente desiludido. o que antes não me era bom.
Mas era desse não bom que eu havia organizado o melhor: a esperança.
Do meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido?
Mas porque não me deixo guiar pelo que for acontecendo?
Terei que correr o terrivel e sagrado risco do acaso. e substituirei o destino pela probabilidade.
No entanto na infância as descobertas terão sido como um laboratório onde se acha o que achar? Foi como adulto que eu tive medo e criei a terceira perna? mas como adulto terei a coragem infantil de me perder? Perder-me significa ir achando e nem saber o que fazer do que se foi achado. As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende, e eu quero ser preso. Não sei o que fazer com a aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava preso, estava contente? Ou havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneiro? ou havia, e havia aquela coisa latejando. a que eu estava tão acostumado que pensava que latejar era ser uma pessoa. É? tambem, tambem.
Fico tão assustado quando percebo que durante horas perdi minha formação humana,não sei se terei uma pessoa para substituir a perdida.
Sei que precisarei tomar cuidado para não sub-repentinamente uma nova terceira perna, que em mim renasce fácil como capim, nasça, e a essa perna protetora chamar de "uma verdade".
Mas é que tambem não sei que forma dar ao que acontece, e sem dar uma forma, nada me existe. E - e se a realidade é mesmo que nada existiu!? Quem sabe nada me aconteceu? Só posso compreender o que me acontece, mais so acontece o que eu compreendo - que sei eu do resto? o resto não existiu. quem sabe nada existiu!
Quem sabe me aconteceu uma lenta e grande dissolução? e minha luta contra essa desintegração está sendo esta: a de tentar agora lhe dar uma nova forma, uma forma contorna o caos, uma forma dá construção a substância amorfa - a visão de uma carne infinita é a visão dos loucos, mas se eu cortar a carne em pedaços e distribui-los pelos dias e pelas fomes - então ela não será mais a perdição e a loucura: será de novo a vida humanizada.
A vida humanizada. eu havia humanizado demais a vida.
Mas como faço agora? devo ficar com a visão toda? mesmo que isso signifique ter uma verdade imcompreenssivel? ou dou uma forma ao nada, e este será meu modo de integrar em mim a minha própria desitegração?
Mas estou tão preparado para entender. Antes, sempre que eu havia tentado, meus limites me davam a sensação física de incomodo, em mim qualquer começo de pensamento esbarrava logo com a testa.
Cedo fui obrigado a reconhecer, sem lamentar os esbarros da minha inteligencia, e eu desdizia veemente. sabia que se ficasse lá, estava fadado a pensar pouco, raciocinar naqueles instantes, se restingia a minha pele. Como pois inaugurar agora em mim o penamento?
e talvez só o pensamento me salvasse, tenho medo da paixão.
Já que tenho que salvar o dia de amanhã, já que tenho que ter uma forma porque não sinto força de ficar desorganizado, já que fatalmente precisarei enquadar a monstruosa carne infinita e corta-la em pedaços assimilaveis pelo tamnho de minha boca e pelo tamanho da visão de meus olhos, já que fatalmente sucumbirei a nescessidade de forma que vem de meu pavor de ficar indelimitado - então que pelo menos eu tenha a coragem de deixar que essa forma, se forme sozinha como uma crosta que por si mesmo endurece, a nebulosa de fogo que se esfria na terra. e que eu tenha a grande coragem de resistir a tentação de inventar a forma.
Esse esforço que eu farei agora por deixar subir a tona um sentido, que qualquer que seja, esse esforço seria facilitado se eu fingisse escrever para alguem.
Mas receio começar a compor para poder ser entendido pelo alguem imaginário, receio começar a "fazer" um sentido, com a mesma mansa loucura que até ontem era o meu modo sadio de viver num sistema.
criado por refain
18:46 — Arquivado em: 
