Escrevo para fugir da perdição de onde estou.
Escrevo ancoras, estacas de madeira, freios de mão, trilhos para uma locomotiva.
Escreva lâmpadas para os pés e faróis para os olhos.
Escrevo represas que suportam a fuga de eu nos meus poros.
Há hemorragias em mim, escrevo para estanca-las.
Escrevo molduras para os auto-retratos deformados que pintei.
Escrevo moldes, embalagens herméticas para o meu eu.
Sarcófagos, caixões, jazigos, camas, redes que me suportam.
Ando dilatando, pingando. Gelo dissolvendo. Vela que se derrete toda.
Meu eu contamina as ruas por onde passo.
Vou deixando migalhas pelo caminho.
Derramando a constituição do meu ser.
Vou me perdendo pelos espaços do mundo.
Escrevo na tentativa de somar tudo isso.
Escorar os galhos que vão crescendo desordenadamente.
Escrevo podas em árvores, amarrações em metal para as trepadeiras.
Escrevo regras, filosofias de vida, pílulas, terapias de suporte de ego.
Escrevo amores declarados.
Escrevo compreensões, teorias, reflexões, tratados, dicionários temáticos, epopéias.
Escrevo as batalhas privadas pelas conquistas dos meus territórios.
Escrevo mapas das extensões geográficas e das condições climáticas do meu corpo.
Escrevo minhas fugas, minhas viagens astrais.
Escrevo até meus porres, minhas glutonarias e minha sede sedenta de amor.
Escrevo o corpo dos meus amantes.
Escrevo o mundo dentro de mim para suportar a pressão do mundo lá fora e dos mundos dos outros eus que absorvo pelo contato do toque,do olhar e da palavra que…Escrevo.
Na soma dos nossos dias, muitas coisas têm passado batido. O dia-a-dia carregado de suas mesmices cotidianas nivelam por baixo os sentimentos e um beijo seu, um afago meu passam batido.
Na soma dos “eu te amo” que trocamos, vai ficando a marca de um lugar comum. O que precisamos dizer realmente se esvai na preocupação com a roupa pra lavar, as contas para pagar.
O amor se desbota e a gente esquece, de repente, de dar uma outra demão, de colocar uma questão. E, de repente, a gente esquece o quão importante um é para o outro.
Para variar, rever as palavras, limpar o sentido, compor um novo verso, eu lhe escrevo tudo isso apenas para confirmar o quanto novo e belo é a velhice do clichê de nos amarmos.
Meu amor, faz tempo que estamos juntos, faz tempo que tecemos sonhos, planejando um futuro para nós dois.
Por vezes me faltam palavras para dizer-te de meus pensamentos, sobre meus desejos, sobre meus sonhos…
E sabemos que por mais que falemos, pensamentos, desejos e sonhos, são coisas pessoais que nascem em nós no mais profundo de nosso peito, de nossa mente.
Por vezes esquecemos de compartilhá-los, não por força de um egoismo, mas por que a vida cotidiana, cobrando de nós tanto, faz com que queimemos etapas, pulemos momentos, deixando para mais tarde a expressão de nossos pensamentos, desejos e sonhos, que vão se sucedendo com a mesma velocidade do tempo.
E assim, quando nos apercebemos, deixamos muito por dizer… Quando nos tocamos, estamos juntos fisicamente e distante ao mesmo tempo.
Por muitas vezes nos pegamos assim, e refazemos os nossos planos, para incluir a nós mesmos na vida um do outro.
E assim, redescobrimos as nossas bocas, que voltam a se consumir em loucos beijos!
E assim, redescobrimos os nossos corpos, e nos surpreendemos com a quantidade de desejos que aguardam expressar-se! E nestes momentos de entrega ou de reentrega, nos sentimos tão plenos que nada mais importa!
E a pura verdade é que nada importa mais para mim que você! Da mesma forma que eu acredito que nada te importa mais que a minha pessoa!
Tendo conciência destas ausências, volto-me agora, com o pensamento fixo em ti! As lembranças estão tão vivas em mim, tão frescas, tão lindas, que por um momento me aborreço com esta correria em nossas vidas, que faz com que deixemos de nos expressar, que nos faz calar nossa voz, ou que faz com que tornemos murmúrios o que deve ser sempre, um brado constante: Eu amo você!
Os afazeres do dia a dia, a urgência em realizar sonhos, a premencia de cuidar de nossos filhos, de nossa casa, das pessoas que tanto amamos, que nos procuram para receber um apoio, uma ajuda, uma palavra, não podem fazer com que nos distâciemos um do outro!
Não podem transformar a nos dois em dois estranhos, estrangeiros dentro um do outro.
Não podem fazer crescer em nossos corações sentimentos negativos, ciumes sem nexos, complexos,dores de amores incompletos ou mal feitos.
Eu que uso as palavras, não posso deixar de dirigi-las á ti, e você que é todo ouvidos, não pode deixar de ouvi-las, pois a minha vida se apoia toda em ti! Da mesma forma que a sua em mim!
E tudo o que dizem de mim, por mais importante que seja, por mais bonito,não esta acima daquilo que pensas, ou sente…
Sou o que sou, mas somente por que tú colocas-te a mão na massa, e moldas-te com a força de seu peito, com a beleza de sua alma, com a sensibilidade de seus sentimentos.
Esta carta é de amor, não de queixas, nem de desculpas, esta carta é para dizer-te que és meu farol; pois indica-me as direções mais seguras para os meus paços. Luz que incendeia os espaços escuros por onde o meu caminhar procura encontrar o meu espaço.
Farol que indica os perigos para o qual devo atentar, quando da necessidade de aportar o meu barco!
Farol, luz, caminho, carinho, amor, assim você é tudo pra mim, e nada, nada nesta vida pode substituir a sua presença em minha vida, a sua importância pra mim.
Mesmo a minha poesia, por mais independente que seja, por mais natural que pareça, por mais distante de nossa realidade, por mais que falem de outros sentimentos e amores que sabes que não são os nossos, mesmo esta poesia de que se recente e inciuma por vezes, mesmo ela existe, por que você existe em minha vida!
Ela tem a sua própria boca, pensamentos, realidade e verdade, pois filtra os meus sentimentos, pensamentos e realidade!
Ela tem a sua própria lógica, mas é assim por que tú me deste liberdade para que assim fosse!
Por fim, entenda-se: Eu te amo profundamente!
Entenda-se completamente: Eu sou o que tú moldas-te cotidianamente! E assim, neste dia que se comemora o dia dos namorados, com estas coisas de presentes, de agrados
o meu jeito de comemorá-lo é este; estar a seu lado, dizendo-te tudo isso, ao pé do ouvido, ou publicamente!
O dia dos namorados como qualquer outro dia, tem menos importância, quando comparado com o dia a dia que vivemos, lado a lado. Com a sua respiração junto a minha, com seu corpo cansado, da lide de dona de casa, com o meu, de trabalhador incansável, que sai no romper da madrugada, pelas estradas e caminhos desta vida para prover o lar!
É verdade que agimos como casais antigos, pois ainda podemos agir assim…
Por que eu sempre sonhei com isso, dessa maneira, da mesma maneira que sonhei que seria a vida de meus pais!
E nosso pensamento tambêm é antigo, pois acreditamos um no outro ainda! Por que nos respeitamos profundamente! Por que nos amamos ardorosamente! E nos queremos profundamente!
As modernidades destes dias que correm, ah! Estas modernidades, são bobagens, ante nossos sentimentos, pois nos amamos demais!